Peça Infernal sem Título – parte 2

Segunda parte (de três) da minha peça curta. A parte 1 está alguns posts abaixo. Comece a leitura por lá.

CENA 2 – A MAIOR DAS FELICIDADES
ÁREA DE CONVIVÊNCIA DA MORADA DE TULS, ERRBAHK E SEU PAI uru biel. Os três estão lá, além de babababa. Estão no meio de uma conversa.
URU BIEL: Que horror, senhor Babababa.
BABABABA: Está vendo isso, Uru Biel? (MOSTRA FERIMENTO) Foi do humano que me atacou, por causa desses dois!
URU BIEL: Como vocês tem coragem! Com um senhor como ele! Que nunca fez nada a vocês! Este absurdo é imperdoável. Senhor Babababa, eu sinto muito.
BABABABA: E o humano fugiu não sei para onde, contatei a polícia e o descrevi, mas pra mim esses humanos são todos muito parecidos, não consegui fazer um retrato-falado do sacana. E agora? Quem vai me repor um torturado?
URU BIEL: Não se preocupe, esses dois insolentes que me enchem de vergonha e mancham o nome de nossa família vão procurar o humano junto com a polícia.
TULS: Mas pai…
URU BIEL: Quieto! Não abra a boca! Vão procurar sim, e vão achar, senão terão que trabalhar até conseguirem um torturado novo para o senhor Babababa. Como vão fazer isso? Não me interessa. Deveriam ter pensado nisso antes de libertarem o humano. E não achem que é só isso não. Senhor Babababa, eu garanto, esses dois vão ser tão punidos que nunca mais incomodarão ninguém por aqui.
BABABABA: Não espero menos do senhor, Uru Biel. Não foi a primeira vez que estas pestilências me incomodaram.
URU BIEL: Eu sinto muito. Não se preocupe. Da próxima vez que vir meus filhos, senhor, eles estarão irreconhecíveis. De tanto que vão apanhar. Mas antes do senhor ir embora… Tuls. Errbahk. O que vocês tem a dizer?
TULS e ERRBAHK: …Desculpe-nos, senhor Babababa.
BABABABA: Insolentes. Se fossem demônios plenos, eu teria mandado prender vocês.
URU BIEL: Pode ir sossegado, senhor. Estes dois estão ferrados, com o perdão da palavra. Te dou a minha palavra.
BABABABA: Passar bem.
BABABABA VAI EMBORA. URU BIEL FECHA A PORTA. OLHA PARA TULS E ERRBAHK FURIOSO. E ENTÃO COMEÇA A RIR.
URU BIEL: Esse velho escroto merecia! Gente, foi difícil segurar a risada na frente dele. Vocês fizeram muito, muito bem. Parabéns. “Bababaca”… (RI)
TULS: Então cê não vai bater na gente?
URU BIEL: Eu se pudesse dava medalhas! Odeio esse velho desde antes de vocês nascerem. Vocês não serão punidos.
ERRBAHK: Mas e o humano?
URU BIEL: Que que tem ele? A polícia já deve ter achado, estuprado e vendido no mercado negro. Que se dane. Se o velho reclamar, eu digo que vocês estão ajudando a polícia, investigando uma pista, não importa. (PAUSA CURTA ) Agora…
TULS: Lá vem.
URU BIEL: Pode apostar que lá vem. Tenho que mandar os dois pra escolinha de novo? Heim? Querem pepeta? Ãh? Quer que eu limpe o bumbumzinho, heim? Errbahk! Vocês não tem mais duzentos anos. Não tão na idade pra essas gracinhas de nenê. Que tipo de demônio vocês querem ser? Ãh? É este tipo de atitude que vocês querem levar consigo após a maioridade? É assim que vocês querem representar a minha casa?
TULS: Não, pai.
URU BIEL: Acho que vocês não entendem o quão sério é o momento que está se aproximando. Vocês, perdão, um de vocês se tornará pleno. Vai gozar de todos os direitos e deveres de um demônio. Acham que, com este tipo de comportamento, vão autorizar que torturem alguém? Torturar é um privilégio. Um privilégio para poucos. Aliás, dane-se o que o resto do Inferno vai achar, se vão ou não autorizar, eu não aprovo. Eu não vou deixar travarem o duelo.
ERRBAHK: Pai!…
URU BIEL: Vocês merecem? Me diga, vocês merecem? Filho, escuta. Tudo o que eu estou, tudo o que eu e sua mãe estamos fazendo é para garantir o futuro de um de vocês. Vocês não dão valor.
ERRBAHK: Claro que sim, pai.
URU BIEL: Falta o que, dois ciclos? Um ciclo e meio até o duelo da maioridade.
TULS: A gente não faz mais.
ERRBAHK: É, eu juro.
URU BIEL: Um ciclo e meio. Vocês deveriam estar treinando, não… agindo como crianças.
TULS: Pai, desculpa! A gente não faz mais.
URU BIEL: Venham cá. Vem cá! (ABRAÇA OS DOIS) Meus dois orgulhos. Vocês vão fazer seu pai muito feliz no duelo. Um dia um de vocês vai ter filhos, e vai saber que não há, para um pai, felicidade maior do que este momento. O nascimento de cada um de vocês foi maravilhoso. E agora é hora de algo ainda mais maravilhoso. Ver um dos meus dois filhões se tornando pleno. Se sua mãe estivesse aqui agora…
ERRBAHK: Pai, cê tá…
URU BIEL: Entrou um cisco…
TULS: Mas pai. Você não vai ficar triste?
URU BIEL: Ãh? Triste como?
TULS: Que um de nós vai morrer?
URU BIEL: Tuls, eu fiz a mesmíssima pergunta pro meu pai setecentos anos atrás. E vou repetir o que ele me disse. Bom, não com as mesmas palavras. (PAUSA CURTA) O duelo da maioridade é um ato de amor. Um ato de amor entre dois irmãos. Entre vocês dois. É através do sangue do derrotado que o vencedor alcança todo o seu potencial como demônio. Sem este sacrifício, não há plenitude. Olha que presente magnífico o derrotado está dando ao irmão. Que honra. Assim como é uma honra receber este presente. A única vez que vi meu pai chorar foi no dia do duelo. E não era difícil notar que eram lágrimas de felicidade. Por mim, claro, mas também pelo meu irmão. Seu avô não sentiu que estava perdendo um filho, e sim que… que… Eu nunca fui bom com palavras que nem meu pai… Amo você, Errbahk. E você. Ah, já ia esquecendo! A cabeça do seu velho pai… Eu já encomendei um presente para o vencedor.
ERRBAHK: O que, pai?
URU BIEL: Três chances.
ERRBAHK: Conta logo, deixa de anjice!
URU BIEL: Errbahk!
ERRBAHK: Desculpa, senhor.
URU BIEL: Isso você fala lá pros teus amigos delinquentes. Eu sou teu pai e exijo respeito! (PAUSA) Quem vencer vai levar… Um humano zero quilômetro para castigar!
ERRBAHK: Nooooooooossssaaaa! Zerinho zerinho? É homem ou mulher? É bebê? Sempre quis punir bebê. Ah, espera! Eu sei: é preto. É preto, né? Diga que é preto…
URU BIEL: Tuls? Não gostou da surpresa?
TULS: Não, quer dizer, sim, claro, pai. Belo prêmio.
CENA 3 – QUEBRANDO A ORDEM NATURAL DAS COISAS
PÁTIO DA CASA. TULS E ERRBAHK ESTÃO JOGANDO BOLA.
ERRBAHK: Perdeu a graça.
TULS: Uiiii… a anjinha fica toda bravinha quando perde…
ERRBAHK: Jogar com bola não tem graça. Legal é jogar com cabeça.
TULS: Cê já jogou?
ERRBAHK: O Samanddi Wowoke ganhou de plenitude. É uma velha vietnamita. É divertido, ela fica nos xingando enquanto a gente joga, ninguém entende nada. É só uoooo chinnnn sayuyaaaaan kwaaaaan sucky sucky five dólla!
PAUSA.
TULS: Errbahk. Cê tá treinando?
ERRBAHK: Bastante. E você?
TULS: É, tô.
ERRBAHK: Aprendi uns golpes muito legais. Ó só. Olha o que te espera. (FAZ GOLPE NO AR). E esse: (FAZ GOLPE NO AR). E tem uns movimentos meio assim (FAZ MOVIMENTOS). E tem uns que eu não posso mostrar, pra não perder o elemento surpresa. (FAZ GOLPE).
TULS: Tá treinando já com arma?
ERRBAHK: Desde o começo. Teu instrutor não te deu arma ainda?
TULS: Não, deu, deu…
ERRBAHK: Sem querer me gabar, mas aquela lâmina parece que foi feita pra mim. Quando eu a saco, é como se fosse uma extensão do meu braço. Ninguém diria que eu nunca havia tocado numa arma antes. Você se cuide, heim! Tá pronto pro duelo?
TULS: Oi?
ERRBAHK: Se você me derrotar, o que vai querer fazer?
TULS: Não sei…
ERRBAHK: Eu vou me alistar no exército. O papai tem uns contatos legais, eu pularia umas etapas, não começaria lá de baixo… Eu heim, virar bucha de canhão… Não, com os contatos do papai e meus predicados, eu comandarei um pelotão em menos de um ciclo humano. De lá pra Elite Negra é fácil.
TULS: Elite Negra.
ERRBAHK: Os caras tem permissão pra depenar anjos! O que é torturar humano comparado a isso? Depenar anjo! E ainda fazem uma grana vendendo as penas pra fazer travesseiro. Imagina, Tuls. Eu, executando ordens diretas de Lúcifer. Com insígnia e tudo. Ninguém teria coragem de mexer comigo. Se o Bababaca aparecesse, ou qualquer um, eu pisava. Pou! E só tirava a bota de cima depois que o cusão beijasse a sola. Ai do demônio que me olhasse torto. Eu já chegaria apavorando. Tá olhando o que? Tá olhando o que? Pou! Perdia todos os dentes antes de poder se desculpar. Ai eu vomitava dentro da boca da anja e fazia engolir.
TULS: Como um verdadeiro Elite.
ERRBAHK: O que cê quer dizer com isso?
TULS: Lúcifer escolhe a dedo sua força-tarefa de elite. Escolhe baseado em atributos como subterfúgio, lábia, furtividade. Os mais traiçoeiros e perigosos do Inferno. Perigosos o suficiente para Lúcifer querer ao seu lado, onde poderá vigiá-los para não ser deposto por um deles. Demônios na mais pura acepção da palavra. E você vai desfilar com a insígnia por ai, se gabando, como se fosse seu quinto pau. Muito sutil. Boa sorte tentando chegar lá.
ERRBAHK: … Melhor que você, que provavelmente seria capturado na primeira luta contra o Céu.
TULS: Eu nunca entraria pro exército.
ERRBAHK: Ah claro que não. Do jeito que cê é anja, aposto que cê se juntaria à seita dos pró-Céu. Só pra matar papai do coração.
TULS: Errbahk, você tem 30 segundos pra se fuder. Começando… perai… Agora!
ERRBAHK: Então diz que cê vai fazer se me derrotar! Senhor eu-sou-tão-superior-ao-exército!
TULS: Esse papo já deu.
ERRBAHK: Peraí, Tuls! Fica ai… Não faz essa cara. Deixa eu te dizer uma coisa? Sem brincadeira. Eu tô treinando demais. Mais tempo até do que o que o meu orientador recomenda. Eu quero vencer essa luta. Mas se eu acabar morrendo pela sua lâmina, a lâmina do meu irmãozinho Tuls, eu morro com um sorriso no rosto. Morro em paz. Porque eu sei que Tuls ama Errbahk como Errbahk ama Tuls, e um de nós parte para o outro ser pleno. (BEIJA TULS).
TULS: Você acredita mesmo nessa baboseira toda?
ERRBAHK: (PAUSA). Baboseira?
TULS: Então você está pronto para matar o irmão, morrer pelo irmão. Pelo papai. Pela casa.
ERRBAHK: Por tudo isso. Pela honra e privilégio de alcançar a maioridade.
TULS: A plenitude.
ERRBAHK: Você duvida? Acha que é da boca pra fora?
TULS: Pelo contrário, irmão. Estou maravilhado com a facilidade com que você aceita cortar a minha garganta só para cumprir uma tradição.
ERRBAHK: Você não faria o mesmo?
TULS: O que, seguir ordens cegamente ou transformar o meu irmão em adubo para o nono círculo?
ERRBAHK: Tuls, eu não estou te reconhecendo. Por que está falando assim? Você não me ama?
TULS: Você consegue enxergar a falta de lógica nesta pergunta? Eu questionando a lei que manda irmão matar irmão, e o irmão perguntando se não é amado? Não deveria ser assim. Eu o amo com todo o meu coração, Errbahk. E irmãos que se amam não podem duelar. Então quem morre está dando uma dádiva de amor ao seu assassino? Que estranha noção é essa, e quem foi o autor dela? Caim? Irmãos devem permanecer juntos! Acho que podemos persuadir Papai a nos apoiar.
ERRBAHK: Tuls, se isso for uma piada, uma brincadeira, por favor diga agora. (PAUSA) Vai, acaba logo com esse suspense, onde tá a câmera escondida? (PAUSA)
TULS: Eu não vou te ferir.
ERRBAHK: Ninguém questiona o duelo, é como… é como duvidar que a Terra é redonda, ou que Lúcifer criou Deus à sua imagem e… Isso é insano! De onde você tirou essas idéias?
TULS: Se mamãe sabia que um de nós ia morrer, por que teve dois? Por que não ficou satisfeita só comigo?
ERRBAHK: Ah. Você preferia que eu nunca tivesse nascido.
TULS: Eu te amo, Errbahk. Mas esta tradição fraticida é talvez a coisa mais imbecil de todo o Inferno!
ERRBAHK: É através do sangue do irmão que…
TULS: “…Que o jovem demônio se torna pleno.” Louro quer biscoito?
ERRBAHK: Desde quando você questiona as tradições?
TULS: Aprendi com os humanos.
ERRBAHK: O que você vai fazer? Fugir? Sabe o que acontece com os pobres diabos que são filhos únicos e crescem sem ter chance de duelar? Vai ser a mesma coisa contigo.
TULS (PAUSA) Eu tenho medo. (PAUSA) Medo de morrer.
ERRBAHK: Somos dois, Tuls. Mas se isso acontecer, se eu… perder, sei que serei amado por você e pelos nossos pais, sempre.
TULS: Fácil pra você dizer isso. É o preferido do papai. Sempre foi.
ERRBAHK: Que… bobagem…
TULS: Eu vi como o olho dele brilhava quando contou pra você sobre o duelo. Ele quer que você vença.
ERRBAHK: Que absurdo… (PAUSA) Eu tenho que… treinar.
ERRBAHK SAI.

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