O Inferno de Dantas – parte 1

Quem frequenta este blog há algum tempo já leu (ou ignorou, tantufas) minha peça teatral curta O DUELO DA MAIORIDADE, em que dois irmãos demônios adolescentes se preparam para uma luta até a morte que decide qual dos dois seria um demônio pleno. Também já mostrei um trecho da peça longa MÍNIMO DENOMINADOR COMUM.

Apresento agora, em três partes (possivelmente intercaladas com tiras), uma das primeiras peças curtas que escrevi (junto com minha bela esposa, Marjory Abuleac), há uns 4 anos – e até hoje inédita. Novamente, o Inferno é o cenário.

O INFERNO DE DANTAS – PARTE 1.

PERSONAGENS:
DANTAS
O DEMÔNIO
A VÍTIMA
O CONDUTOR
CENA 1 – UM ÚLTIMO CONSELHO.
O CONDUTOR LEVA DANTAS POR UM CAMINHO SINUOSO. PODE SER UMA
GÔNDOLA NUM RIO SUBTERRÂNEO, OU QUALQUER OUTRO VEÍCULO. PODE
TAMBÉM SER UM ELEVADOR.
CONDUTOR: Sei que não é da minha conta, mas você sabe por que está sendo
levado lá? (PAUSA) OK, só estava tentando puxar conversa. Não
que eu me importe. É sempre a mesma coisa. Nunca um motivo
novo. É a natureza das pessoas, né? Fazerem tudo igual? (PAUSA)
Cê tá fazendo certo. Tá quieto. Isso é bom. Aqui, é melhor engolir
tudo quanto é desaforo. Pois quando você acha que não dá pra
piorar, aí é que está tudo só começando. (PAUSA) Na verdade,
mostrar medo é ruim. Tentar esconder o medo é ruim. Se fazer de
esperto é ruim. Tudo é ruim. Eles não perdoam nada. (FIM DA
VIAGEM) Tá entregue. (DANTAS VAI AVANÇAR EM SEU
CAMINHO, CONDUTOR O BARRA) Não ta faltando nada não?
(PAUSA CURTA) Tenho cara de palhaço? Acha que isso aqui é
trabalho volun-otário?
DANTAS: Eu… eu não tenho… quanto é?
CONDUTOR: Aaah, assim você não vai durar muito neste lugar não. Não falei pra
não abrir a boca? Você pergunta quanto é, eu sou obrigado a
caprichar na resposta. E olha, você tem muita coisa que me
interessaria… Mas meus serviços já foram pagos. Está incluso no
pacote. (PAUSA. DANTAS VAI AVANÇAR DE NOVO, CONDUTOR
NÃO DEIXA) Mas meu conselho não está. (PAUSA) Só testando. Vai
na paz de Deus. Ou não.
CONDUTOR SAI.
CENA 2 – A CALOROSA RECEPÇÃO A DANTAS NO INFERNO.
DANTAS ESTÁ SOZINHO EM UM APOSENTO DO INFERNO, CUJA
REPRESENTAÇÃO ESTÁ A CARGO DA IMAGINAÇÃO DO DIRETOR. HÁ, EM
ALGUM CANTO, CORRENTES TANTO NO CHÃO QUANTO NO TETO. DANTAS
EXAMINA O LUGAR, MAS COM CAUTELA. ELE SE ASSUSTA COM O BARULHO
DE ALGUÉM ENTRANDO NA SALA: É O DEMÔNIO. ELE VEM COM UMA MESA
COM RODINHAS, NA QUAL ESTÁ UM BAÚ, MALA OU QUALQUER OUTRO
RECIPIENTE ONDE O DEMÔNIO GUARDA SEUS APETRECHOS DE TORTURA.
O DEMÔNIO: (LÊ ARQUIVO SOBRE DANTAS) Alceu Dantas. Quarenta e quatro
anos, pele branca, cabelos escuros ameaçando ficar grisalhos, olhos
castanhos, aura rubra. (PASSA RÁPIDO POR INFORMAÇÕES
DESNECESSÁRIAS. DEMONSTRA INTERESSE EM ALGO)
Redator de palavras-cruzadas da revista Rabo-de-Galo.
Profissionalmente insatisfeito. Sem grandes ambições ou sonhos. Pai
de família exemplar, marido exemplar. Que lindo… você a amava,
né? (GARGALHA AO LER O PRÓXIMO ITEM:) Mórmon!
Observações: constituição física fraca, baixa tolerância à dor física.
Em resumo, um bebezão. (PAUSA) Eu sou (O DEMÔNIO DIZ SEU
NOME. SEU NOME NÃO É UMA PALAVRA, É UM LONGO RUÍDO
DE UM GARFO RISCANDO UM PRATO, ALTO O SUFICIENTE
PARA INCOMODAR BASTANTE). Serei seu anfitrião e o
responsável por tornar sua estada aqui o mais intolerável possível.
Eu sei que a mente humana não é capaz de computar o tempo
infinito, mas faça um esforço para entender, o nosso “para sempre” é
literalmente “para sempre”. (O DEMÔNIO ABRE SEU BAÚ OU
MALA OU ETC E COMEÇA A TIRAR SEUS APETRECHOS DE
TORTURA, POSICIONANDO-OS PELA SALA, DECORANDO-A.)
Saiba que você não tem direito a um advogado, ainda porque eles
estão todos ocupados sendo esfolados vivos. Não há escapatória,
mas tentativas são sempre bem-vindas. Na verdade, de tempos em
tempos libertamos alguns manés pra ver os pobres fodidos tentando
fugir. A gente chama de temporada de caça. Dúvidas? Não? Você
aceita algo? Posso pedir pra passarem um cafezinho, um chá, um
baconzitos, não? Vamos começar, então. (O DEMÔNIO FAZ SINAL
PARA DANTAS IR ATÉ O LOCAL DAS CORRENTES E SE
ACORRENTAR) Você entende que isto seja necessário, não?
(DANTAS SE ACORRENTA) Os dois braços. Isso. Deixa eu te
ajudar… pronto. Agora… Uni-duni-tê, sifudê-minguê, o cacete colorê,
o fudido foi vô…cê! (A BRINCADEIRA É PARA ESCOLHER O
APETRECHO DE TORTURA. CAI NUM CHICOTE) Hum… muito
retrô. Que tal… (O DEMÔNIO ACENDE UMA VELA, OU UM
ISQUEIRO, QUALQUER COISA PEGANDO FOGO.) Ah, que fique
bem claro que eu tenho imenso prazer em executar minha função, e
que este prazer é diretamente proporcional ao seu sofrimento. (O
DEMÔNIO ABAIXA A CALÇA E A CUECA DE DANTAS) Portanto,
não tenha dúvidas, você vai sofrer. Ou meu nome não é (O
DEMÔNIO REPETE SEU NOME. POSICIONA A CHAMA SOB O
SACO DE DANTAS).
DANTAS: Não, não, não, pára, pára, páááára…
CENA 3 – A PROPOSTA DE DANTAS.
ESTAMOS NO MESMO CENÁRIO, TEMPOS DEPOIS. A ROUPA DE DANTAS ESTÁ
EM FRANGALHOS. SEU CORPO ESTÁ FRAGILIZADO POR MUITAS TORTURAS.
O DEMÔNIO: Dantas, interjeição de dor com catorze letras?
DANTAS: Pára, por favor…
O DEMÔNIO: Pê-a-érri-a… errou.
O DEMÔNIO FERE DANTAS.
DANTAS: (GRITA) Aaaaaaaaaai!
O DEMÔNIO: A-a-a-a-a-a-a-a-a-a-a-a-a-i. Certa resposta! Muito bem. Dez segundos
de descanso.
DANTAS: Me dá um cigarro? Por favor?
O DEMÔNIO: Deu dez segundos.
DANTAS: Espera. Tem que ter algo que eu possa fazer para…
O DEMÔNIO: De novo esse papo? Você não tem nada a me oferecer.
DANTAS: Deve haver milhões de outras almas por aqui precisando ser punidas.
Me largue aqui trancado e jogue a chave fora. Ninguém vai saber
que… você pode dizer pros outros que eu não agüentei a tortura e
morri.
O DEMÔNIO: Chega de papo. Por aqui só tem dois tipos de pessoas. Os que
erguem o chicote e os que recebem seu beijo.
O DEMÔNIO CASTIGA DANTAS POR ALGUM TEMPO.
DANTAS: Então deixa eu erguer o chicote.
O DEMÔNIO: Você me diverte.
DANTAS: Estou falando sério. Eu… (PAUSA) Eu posso punir pessoas. Eu posso
fazer com elas tudo o que você faz. Tudo o que eu peço é que a dor
pare. Eu… eu quero virar um demônio.
O DEMÔNIO: Gente, essa eu tenho que contar para os outros…
DANTAS: É sério! Pense nisso. Eu duvido que haja demônio suficiente para o
tanto de alma corrupta no mundo. Eu posso virar um de vocês. Eu sei
ser cruel. Esse tempo todo aqui embaixo, eu fiquei pensando.
Lembrei dos insetos que eu pisava só pra ver eles se estrebucharem
no chão. Os tatus-bolinha que eu forçava a ficarem abertos, só para
eu arrancar as patas.
O DEMÔNIO: Insetos!
DANTAS: Não importa. Se for para eu não sentir mais dor nenhuma, eu faço
tudo. Não há nada do que você já me fez que eu não aceite fazer
também. Na verdade, eu bem que gostaria de descontar em alguém
tudo isso. (PAUSA) Ninguém nunca pediu isso antes, né? (O NOME
DO DEMÔNIO), você não tem nada a perder. E o Inferno só tem a
ganhar.

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Um pensamento sobre “O Inferno de Dantas – parte 1

  1. Descobri seu talento no último domingo e gostei, pra caramba. Passei a madrugada lendo suas artes. Gostei desta primeira parte “Inferno de Dantas” Tá parecendo Neil Gaiman misturado com Stanislaw Ponte Preta. Loucura de tudo e muito bom.

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