O Inferno de Dantas – parte final

Eu disse que a peça seria dividida em três. Calculei errado. Segue a segunda e última parte de O Inferno de Dantas. Para quem está chegando agora, o começo está 2 posts abaixo.

aproveitando: Marcos Silva, você acertou em cheio no seu comentário. A fonte de inspiração para a peça foi um conto breve do Neil Gaiman. Quanto à comparação com Stanislaw Ponte Preta, acho que nunca recebi um elogio tão legal. Espero que goste do resto.

abs

 

 

CENA 4 – RENOVANDO O CONTRATO.

escuro. ouvimos os gemidos de prazer de dantas, que faz questão de gemer bem alto. ele está falando impropérios à pessoa com quem está transando. dantas chega ao orgasmo e cai saciado. a luz acende. vemos que dantas está muito diferente. ele é dono da situação, agora. ele descansa no chão. acorrentada, está a vítima, que acaba de ser currada. as marcas de violência nela são muito maiores do que as que dantas tinha na cena anterior.

DANTAS: Eu preciso confessar algo. Ouvir os seus gritos, ver seus espasmos, arrancar gritos e lágrimas de você, abrir suas feridas com a unha e mijar dentro, forçá-la a comer pregos… O que a gente tem, eu nunca tive com nenhuma outra mulher. Eu… nunca fui tão feliz. Se tirassem você de mim… (PAUSA) Você sabe que não é a única, né? Tem ainda quatro homens e outra mulher. Será que você sente ciúmes quando ouve meu chicote rasgando outra pele? Será que você pede em segredo para que eles sejam mandados pro Céu, pra você virar a única do meu harém? (PAUSA) As coisas que eu faço contigo, eu não faço com nenhum outro. (PAUSA) E eu amo o seu senso de humor, já te disse isso? Só você sabe como me fazer rir.

DANTAS CASTIGA A VÍTIMA E COMEÇA A GARGALHAR. O DEMÔNIO ENTRA.

O DEMÔNIO: Alceu, Alceu, Alceu, não sei o que é mais ensurdecedor, os gritos desta pobre coitada ou as suas risadas.

DANTAS: Não tem como evitar. Nunca em vida tive tanto prazer em exercer o meu ofício.

O DEMÔNIO: Você nasceu pra isso.

DANTAS: Outro dia estava pensando, acho que a gente é obrigado a escolher a profissão muito cedo, sabe? Assim que acaba o colégio, já chega o cursinho, vestibular, tem que decidir qual curso fazer, qual facú… Eu cheguei a fazer sete faculdades, sabia?

O DEMÔNIO: É mesmo?

DANTAS: Biologia, letras, ciências da computação, pedagogia, filosofia, ciências sociais, RP. Eu entrava na sala de aula, os professores começavam a nhé nhé nhé nhé nhé e eu pensando: “Que diabos estou fazendo aqui” – com todo o respeito.

O DEMÔNIO: Não, claro.

DANTAS: Dava um mês, eu saia do curso e voltava pro cursinho. Teve vez em que eu prestei direito, ciências sociais, história e filosofia, tudo junto. No que eu entrasse, eu cursava. Deu filosofia. (COLOCA O DEDO NA GARGANTA). A primeira vez que prestei, nem era pra fazer nada, era só pra ganhar o carro que meu pai prometeu, se eu entrasse na PUC. Se fosse por mim, eu tava…

O DEMÔNIO: Vendendo sanduíche natural em Maresias.

DANTAS: Que pra falar bem a verdade, nem sei se me deixaria feliz. Agora, isso, isso sim é vida.

O DEMÔNIO: Nós também estamos muito satisfeitos contigo. Olha, nem sei se deveria te contar, mas há um boato por ai que é você quem vai ganhar “Demônio do Milênio”.

DANTAS: Sério?

O DEMÔNIO: Há tempos não surge alguém com tamanhos requintes de crueldade. (PARA A VÍTIMA) Olha que honra! Não é qualquer um que passa a eternidade sendo punido por um Demônio do Milênio.

DANTAS: Eu tive um grande mestre.

O DEMÔNIO: (PAUSA CURTA) Nosso contrato, ele está quase no fim.

DANTAS: Quanto tempo já se passou?

O DEMÔNIO: Trezentos e noventa e sete anos, cento e seis dias, doze horas, alguns quebrados.

DANTAS: Diga logo onde eu assino, cadê a caneta? (O DEMÔNIO PEGA O CONTRATO E LHE ENTREGA. PAUSA) Aaaah, te peguei, cê acha que eu assinaria sem antes ler? Esse aqui é irmão desse. Cadê minha lupa? Ah.

DANTAS EXAMINA O CONTRATO.

O DEMÔNIO: Caso você tenha uma cópia de seu contrato antigo, verá que este é semelhante na maioria dos pontos, com um ou outro acréscimo.

DANTAS: … Cargo vitalício?

O DEMÔNIO: Sim. Este é um dos novos benefícios. Se quiser, trabalhará para nós durante toda a eternidade.

DANTAS: Isso… é mais do que eu sonhava! (ASSINA O CONTRATO)

O DEMÔNIO: Alceu, bem-vindo à família. (ABRAÇAM-SE)

DANTAS: Eu poderei continuar brincando com essa aqui?

O DEMÔNIO: Deve, como você pode conferir no parágrafo nono. Não gostamos de rodízio por aqui. Fora que a Márcia já deve estar acostumada contigo, né. Deve até ter criado aquilo que… como chama mesmo? Quando a seqüestrada se apaixona pelo seqüestrador?

DANTAS: Que Márcia?

O DEMÔNIO: Alceu, a Márcia! (APONTA PARA A VÍTIMA)

DANTAS: Acredita que esse tempo todo, ela nunca havia dito o nome? E eu perguntei várias vezes… educadamente.

O DEMÔNIO: (LÊ UM ARQUIVO) Márcia Sepúlveda Dantas.

PAUSA.

DANTAS: Isso não tem graça.

O DEMÔNIO: Márcia Sepúlveda Dantas!

DANTAS PEGA O ARQUIVO E OLHA.

DANTAS: Essa ai não é a Márcia!

O DEMÔNIO: E a foto? (MOSTRA FOTO)

DANTAS: Não sei do que você está falando!

O DEMÔNIO: (irônico) Você não reconhece a própria esposa?

DANTAS: Pára com isso! Seja lá o que for que você está tentando fazer… ela nem se parece com a Márcia!

O DEMÔNIO: Então por que você está evitando olhar?

DANTAS OLHA PARA A VÍTIMA. ELE RECONHECE A ESPOSA. POR UM MOMENTO, FICA SEM REAÇÃO. VAI ATÉ ELA.

DANTAS: Zinha? Zinha, meu anjo! (PAUSA) O que, o que foi, Zinha? Fizeram algo contigo? Quem? Se eu pego o… (A VÍTIMA REJEITA OS CARINHOS DE DANTAS) Zinha, sou eu! O Xuco! Olha, é o Xuco! (A VÍTIMA SE AFASTA DELE) Zinha?

O DEMÔNIO DÁ UMA TOSSIDA FORÇADA.

O DEMÔNIO: Querem que eu saia um pouco?

DANTAS: Seu animal! Tire ela daqui, já!

O DEMÔNIO: Como?

DANTAS: Foi você, o que você fez com ela?

O DEMÔNIO: Oh, please! Eu não fiz nada.

DANTAS: Tira ela daqui! Eu te mato!

O DEMÔNIO: Foi você, Dantas. Esses anos todos, foi você!

DANTAS: É mentira! Não era ela!

O DEMÔNIO: Não?

DANTAS: Você trocou as duas! Tá tentando me torturar!

O DEMÔNIO: Olha que interessante… Esse tempo todo… você nem percebia que era a Márcia? Que fenômeno mais intrigante! E os gritos dela? Nos primeiros anos ela perguntava “Por que? Por que? Por que?”, te pedia para parar… pedia em nome do seu filho, em nome do amor que vocês tinham… Você não ouvia? (PAUSA) E eu, achando que você fazia de propósito, afinal cada vez que ela falava algo pessoal, a tua risada ficava mais sádica… Até os outros demônios faziam o sinal da cruz quando ouviam… Pensei: Ele deve saber que ela chifrava ele e tá descontando com juros e correção.

DANTAS LIBERTA A VÍTIMA DAS CORRENTES.

DANTAS: Zinha, me perdoa… eu não sabia…

O DEMÔNIO: “Perdoai-o, Pai, ele não sabe o que fez.”

DANTAS: Zinha… eu tinha tanta saudade… Eu não queria… Fala comigo, por favor.

PAUSA.

A VÍTIMA: Eu… (PAUSA) Eu te odeio! Espero que te castiguem por vinte vezes mais tempo! Que abram um rombo no seu peito e apaguem cigarros no seu coração por mil anos! Que lavem seu cabelo com ácido e que um câncer cresça em cada osso do teu corpo, enquanto crianças brincam de geleca com pedacinhos do seu cérebro, enquanto você observa e sente tudo, enquanto é estuprado em todos os seus orifícios!

DANTAS: Zinha, por favor…

A VÍTIMA: Não me chama assim! Monstro! Nunca mais toca em mim!

PAUSA.

DANTAS: Eu nunca devia ter proposto aquilo. Me dá o contrato!

O DEMÔNIO: Você sabe que não funciona assim.

DANTAS: Deixe ela sair do Inferno. Eu faço o que você quiser.

O DEMÔNIO: Você sabe que não funciona assim.

DANTAS: Se ela não pode sair daqui, então entregue-a a outro… eu não conseguiria mais erguer o chicote…

O DEMÔNIO: O contrato, lembra? Está bem clara a clausula de exclusividade… ela é sua e você é dela, até o fim dos tempos… Anime-se! Quando o padre diz que o que Deus uniu, o homem não separa, todos sabemos que é balela. A taxa de divórcios por ano é maior do que a de matrimônios. Mas uma cláusula como esta… em outras palavras: O que o Demônio uniu…

PAUSA CURTA.

DANTAS: Então eu quero pagar a multa. Deve ter uma multa, não tem? Um jeito de quebrar o acordo.

O DEMÔNIO: Ter tem…

DANTAS: Tudo bem. Estou pronto. Pode voltar a me castigar.

O DEMÔNIO: Você não entendeu. Não é do nosso interesse perder um dos nossos melhores demônios. E não se esqueça, você mesmo disse, é o emprego da sua vida. Só há uma coisa que posso oferecer, para quebrar a cláusula de exclusividade. E é por consideração, afinal você é quase um irmão pra mim.

DANTAS: Diga logo!

O DEMÔNIO: Um garoto de seis anos acaba de chegar…

DANTAS: Eu aceito. Eu não ligo. Eu castigo a criança. Eu serei ainda mais cruel do que já fui com ela! Se ele está aqui, é porque não é inocente…

O DEMÔNIO: Alceu, este tempo todo aqui, não percebeu que o Inferno é como as prisões da Terra? O que mais tem aqui é inocente!

DANTAS: Tudo bem! Qualquer coisa!

O DEMÔNIO: Aqui está o novo contrato.

A VÍTIMA: Não! Alceu, não assine! É uma armadilha!

DANTAS: Não importa…

A VÍTIMA: Só pode ser o Daniel! Se você assinar, será obrigado a passar a eternidade machucando o nosso filho! (PAUSA) Alceu, não faça isso! Eu te imploro!

DANTAS: Eu… eu fiz tanta coisa errada… sou um fraco…

A VÍTIMA: Não faça outra ainda pior! Não há nada pior do que isso!

DANTAS: Eu nunca quis te machucar…

A VÍTIMA: Nada vai me machucar mais do que isso!

O DEMÔNIO: As três vias, por favor.

A VÍTIMA: (GRITA) Não! (A VÍTIMA ARRANCA O CONTRATO DA MÃO DE DANTAS. A VÍTIMA ENTREGA O CHICOTE PARA DANTAS E RASGA O CONTRATO. ELA VOLTA PARA O LUGAR ONDE ESTAVA ACORRENTADA, NA POSIÇÃO PARA RECEBER UM CASTIGO. PAUSA) Vai, o que está esperando? Anda! (PAUSA. A VÍTIMA GRITA) Vai, seu animal! (DANTAS USA O CHICOTE, HESITANDO) Mais forte! (DANTAS CHICOTEIA NOVAMENTE) Que nem homem! Que nem homem! (DANTAS CHICOTEIA COM FORÇA. A VÍTIMA GRITA DE DOR. DANTAS COMEÇA A CHORAR) Não pára!

DANTAS CHICOTEIA CHORANDO. O DEMÔNIO, SATISFEITO, PEGA O CONTRATO RASGADO DO CHÃO E VAI SE AUSENTANDO, ENQUANTO A VÍTIMA CONTINUA MANDANDO DANTAS PUNÍ-LA MAIS E MAIS. A LUZ VAI BAIXANDO EM RESISTÊNCIA AO SOM DOS GRITOS, CHOROS E ESTALOS DE CHICOTE.

FIM.

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