Peça Infernal sem título – Última parte

Confira nos posts abaixo as duas primeiras partes deste texto. E não se preocupe, é curto. A peça toda pode ser lida em 16 minutos e 24 segundos.

CENA 4 – A ÚLTIMA CEIA.
TULS, ERRBAHK E URU BIEL ESTÃO JANTANDO.
URU BIEL: De repente no consultório médico entra um anjo. O anjo tem um sapo na cabeça. O doutor pergunta: – Qual é o problema? E o sapo responde: – Tudo começou com uma hemorróida, senhor…
ERRBAHK E TULS DÃO UMA RISADA DIPLOMÁTICA.
URU BIEL: Outra, outra: O que os anjos tem mais do que a gente?
ERRBAHK: Tem mais é que se fuder!
RISADAS DIPLOMÁTICAS.
URU BIEL: Ok. Tem algo acontecendo ai. Cês adoram piada de anjo.
TULS: É que cê já tinha contado essas umas cem vezes.
URU BIEL: Não é só isso. Vocês tem estado meio quietos desde o último ciclo. Não vejo vocês brincando, jogando videogame… Vocês brigaram. (PAUSA) Tem a ver com o duelo?
TULS: Não.
URU BIEL: Então é o quê?
ERRBAHK: Não foi nada, já passou.
TULS: Eu peguei emprestado dinheiro da carteira dele e esqueci de pedir. Aí ele achou que eu tinha roubado. Eu já pedi desculpa.
URU BIEL: Foi só isso mesmo, Errbahk?
ERRBAHK: (PAUSA) Sim. Ele já devolveu tudo.
URU BIEL: Então já tá tudo resolvido?
TULS: Sim.
URU BIEL: Então quero ver um beijo.
ELES SE BEIJAM.
URU BIEL: Na boca, como irmãos!
ELES DÃO UM SELINHO.
URU BIEL: Come mais, Tuls. Eu fiz vesícula de uruguaio especialmente pra você!
TULS: Já comi, pai.
URU BIEL: Sério, gente, esta pode ser a última ceia de um de vocês! Aproveitem! Não faz essa cara… é nosso último jantar de família com todos nós reunidos. Era pra ser uma noite especial! Eu tô orgulhoso de vocês. E sua mãe com certeza estaria, viu? Que pena que ela não pode ver esse momento. Tá com tudo pronto, filho?
ERRBAHK: Tô.
URU BIEL: Tuls?
TULS: … Ahã.
URU BIEL: Amanhã eu vou acordar mais cedo pra preparar um café da manhã especial. Algum pedido?
ERRBAHK: Hamburguer de anjo.
URU BIEL: No café-da-manhã, filho? … Tudo bem. Hamburguer de anjo. Quero mostrar uma coisa. Venham!
URU BIEL LEVA ERRBAHK E TULS ATÉ O QUARTO. MEXE EM UM QUADRO. ATRÁS TEM UM COFRE ESCONDIDO.
URU BIEL: É hora de conhecerem meu maior tesouro. Depois de vocês, claro.
URU BIEL ABRE O COFRE E PEGA UMA PEQUENA URNA.
URU BIEL: Tio Jesus Biel.
TULS: Ele te deu esse coiso ai?
URU BIEL: Não, filho… isso é o seu tio Jesus Biel. Ele tá aqui dentro.
TULS: Tchover?
URU BIEL: As cinzas dele. Isso é uma urna funerária. Desde o dia do meu duelo, eu agradeço a seu tio toda noite pela dádiva. Ele fez de mim o que sou hoje. E tem me dado força desde a sua morte. De-desculpa, entrou um cisco… Vem cá.
URU BIEL ABRAÇA OS FILHOS.
URU BIEL: Adivinhem o que tem de sobremesa?
TULS E ERRBAHK: Curdo suzette!

CENA 5 – A INSÔNIA QUE UMA VÉSPERA CAUSA
TULS E ERRBAHK ESTÃO DEITADOS NAS SUAS RESPECTIVAS CAMAS. SILÊNCIO.
TULS: Errbahk? Tá dormindo? (PAUSA) Desculpa.
ERRBAHK: Desencana.
TULS: Eu fui um idiota. Esquece aquilo tudo que eu disse. Eu não acho nada daquilo.
ERRBAHK: Que bom.
TULS: Eu até achei, mas agora não acho mais. Vou lutar com tudo o que eu tenho. Eu treinei bastante hoje.
ERRBAHK: Eu sei. Eu vi você lá com o teu treinador.
TULS: Fica tranquilo. Eu não penso mais nada daquilo. E desculpa.
PAUSA.
TULS: É só que… a gente sempre fez tudo juntos! Na escola, na rua, a nossa fama, quando a gente faz alguma coisa, todo mundo já sabe, “Isso é coisa do Tuls e Errbahk.” “Só pode ter sido o Tuls e Errbahk”.
ERRBAHK: Errbahk e Tuls.
TULS: Tuls e Errbahk. São eles que falam. Não tenho nada a ver com isso. Relaxa, deve ser mais sonoro. E a partir de amanhã… É só um de nós. Daí, como vai ser?
ERRBAHK: Quem vencer vai ter que aprender a se virar sozinho.
TULS: Tá. Digamos que eu venço. Duvido, eu duvido que eu consiga fazer qualquer coisa sozinho.
ERRBAHK: Não viu o pai falando do tio Jesus Biel? Ele tá sempre lá com o pai. Quem perde não vai embora. Quê? Não acredita em vida após a morte? E de qualquer jeito, depois do duelo, tudo muda! Com o status de demônio pleno, um mundo novo vai se abrir! Torturas! Humanos! Escravos! Demoninhas pelancudas… Sério, você vai me esquecer ó, dois tridentes!
TULS: Você vai me esquecer?
SILÊNCIO.
CENA 6 – QUANDO MENINOS SE TORNAM HOMENS E OS FRACOS PAGAM POR ISSO.
LOCAL DO DUELO. TULS E ERRBAHK ESTÃO VESTIDOS À CARÁTER E PORTAM ARMAS. ESTÃO CADA UM EM UM CANTO. TULS TREINA DANDO GOLPES NO AR. ENTRA URU BIEL, VAI ATÉ TULS.
URU BIEL: E ai filhão! Tá nervoso? Tá confiante? Quero ver você usar tudo o que o teu treinador te ensinou, heim!
TULS: Pai…
URU BIEL: Eu também, filho. Eu também, muito!
TULS: Não, pai, eu ia te pedir pra mudar a música. Tá muito chata essa!
URU BIEL: Mas essa é a música que eu e teu tio Jesus… (PAUSA CURTA) Quê que eu tô falando? Esse é o momento de vocês, não meu. Pode deixar. Sucesso, Campeão! Papai tem muito orgulho de você, viu?
TULS: Te amo, pai.
URU BIEL: Eu também, filho. Eu também, muito! (SE ABRAÇAM) Te cuida. Não abaixa a guarda!
URU BIEL VAI ATÉ ERRBAHK.
URU BIEL: E ai.
ERRBAHK: E ai.
SE ABRAÇAM DEMORADAMENTE.
ERRBAHK: Pai… tem demônia olhando!
URU BIEL: Sucesso, filho.
URU BIEL VAI ATÉ O CENTRO.
URU BIEL: Eu nunca fui bom com as palavras… Foi neste mesmo lugar que… Eu lembro do meu pai vendo… Hoje, meus dois filhos amados, que ainda ontem eram… (PAUSA) Entrou um cisco… Que comece o duelo!
ERRBAHK E TULS ENTRAM NA ARENA, SE CUMPRIMENTAM.
ERRBAHK: Te amo, Tuls.
SOA O GONGO. OS DOIS COMEÇAM A SE CIRCULAR. DE REPENTE, TULS LARGA A ARMA.
ERRBAHK: Que merda é essa? Pega tua lâmina!
TULS: Eu sinto muito.
ERRBAHK: Vai dar uma de anjo agora? Pega a lâmina!
TULS: Não.
URU BIEL: O que está acontecendo? Tuls, ataca teu irmão!
ERRBAHK: Se você não pegar a arma, vou ter que te acertar.
TULS: Vai ter que me acertar.
ERRBAHK: Não faz isso. Na frente de papai, não.
PAUSA. ERRBAHK DERRUBA TULS.
ERRBAHK: Levanta! (PAUSA) Luta! (PAUSA) Seu merda, eu comi tua mãe e esporrei sangue nela! Luta, seu harpista!
URU BIEL: Mas que palhaçada é essa? Lutem!
ERRBAHK: Eu vou dar o golpe de misericórdia. Mas não é o que eu quero! Não é pra isso que eu treinei tanto! Seria como vencer de dáblio ó!
TULS: Papai quer que você vença. Todo mundo sabe disso. Este é meu presente pra você.
ERRBAHK: Eu juro! Eu vou te matar!
TULS: Mire aqui.
PAUSA.
URU BIEL: Mate-o!
ERRBAHK LEVANTA A ARMA, SE PREPARA PARA DAR O GOLPE DE MISERICÓRDIA. PAUSA. ERRBAHK DEIXA A ARMA CAIR.
ERRBAHK: Eu não posso. Eu não posso! Ele é meu irmão! Meu irmão maior! Eu não posso matá-lo… Pai… desculpa…
URU BIEL: Vocês são a maior desgraça da minha vida!
ERRBAHK: Pai, não vai embora, pai, por favor, pai…
TULS CRAVA SUA LÂMINA NAS COSTAS DE ERRBAHK. ERRBAHK GRITA. TULS DÁ SEGUIDOS GOLPES EM ERRBAHK, COM VIOLÊNCIA, ATÉ QUE ERRBAHK MORRE.
TULS: Te amo, Errbahk. Que você viva em meu coração eternamente. Pai, eu vos ofereço a morte de meu irmão Errbahk, conquistada honradamente em duelo.
PAUSA.
URU BIEL: Vitória de Tuls! Errbahk, meu filho, obrigado pelo sacrifício que você fez pelo seu irmão. Adeus, filho! (PAUSA CURTA) Tuls. Você é de fato meu filho. Você enganou e matou seu irmão. Você usou de subterfúgios e manipulação em vez da força bruta e, portanto, conquistou a honra de ser um verdadeiro demônio.
TULS: Aprendi com os humanos.
FIM.

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